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Dra. Natália Boing Salvatti |

No cotidiano do meu consultório e após anos atendendo casos de infarto na emergência, percebo que o medo do infarto é uma constante entre profissionais liberais que cruzaram a barreira dos 40 anos. No entanto, o que mais me chama a atenção não é o receio em si, mas como as mesmas perguntas se repetem, revelando lacunas de informação que geram uma ansiedade desnecessária. Muitas vezes, esse medo paralisa o paciente, impedindo-o de tomar as rédeas da própria saúde de forma preventiva e estratégica.

Ouvir frases como “Dra. Natália, eu tenho medo de cair morto na esteira” ou “Será que essa pontada no peito é infarto?” é mais comum do que se imagina. O meu papel, como cardiologista dedicada à prevenção cardiovascular, é transformar esse temor em ação consciente. Em meio às incertezas, o conhecimento nos fornece clareza e segurança. Por isso, decidi redigir este artigo para esclarecer as quatro dúvidas que mais recebo, desmistificando conceitos e posicionando a prevenção como uma ferramenta essencial para cuidar do que realmente importa, sua saúde.

1. É normal ter infarto “do nada”?

Um dos maiores equívocos que cercam a saúde cardiovascular é a ideia de que o infarto é um evento súbito e imprevisível, que atinge pessoas saudáveis sem qualquer aviso. Preciso ser direta: o infarto NUNCA ocorre “do nada”. O que acontece é que o processo que leva ao evento, a aterosclerose, é silencioso, indolor e pode levar décadas para se manifestar clinicamente. O coração não avisa que está adoecendo até que o limite crítico seja atingido.

A aterosclerose é o acúmulo de gordura, cálcio e células inflamatórias nas paredes das artérias. Imagine que suas artérias são avenidas que, ao longo dos anos, sofrem com obras e entulhos. O perigo não está apenas no “entupimento” total, mas nas chamadas placas vulneráveis. Estas são placas de gordura que ainda não obstruem muito a passagem do sangue, mas possuem uma capa fina que pode romper. Quando essa capa rompe, o corpo forma um coágulo para “consertar” a fissura, e é esse coágulo que fecha a artéria subitamente, causando o infarto.

Para os profissionais liberais e empreendedores com alta demanda, o estresse crônico atua como um gatilho biológico potente. Ele eleva o cortisol e a adrenalina, aumentando a pressão arterial e a inflamação, o que pode desestabilizar uma placa que já estava lá. Fatores como hipertensão, colesterol elevado, tabagismo e diabetes são os arquitetos desse processo. A boa notícia é que, com tecnologias como a Angiotomografia de Coronárias (AngioTC), conseguimos enxergar essas placas anos antes de elas causarem um problema, permitindo intervenções estratégicas antes que o “acaso” aconteça.

2. Infarto é o mesmo que parada cardíaca?

É muito comum a confusão entre esses dois termos, mas entender a diferença é muito importante, inclusive para saber como agir em uma emergência. Para facilitar, gosto de usar uma analogia prática: o coração é uma casa, onde as paredes são o “músculo” do coração e as suas artérias são o encanamento, e o infarto é um problema de “encanamento”. Enquanto que a parada cardíaca é um problema “elétrico“, ou seja, na rede elétrica do coração. São fenômenos distintos, embora um possa ser a causa do outro.

O infarto agudo do miocárdio ocorre quando o fluxo de sangue para uma parte do músculo cardíaco é interrompido. Sem oxigênio, as células daquela região começam a morrer. O coração continua batendo, mas está sofrendo uma lesão estrutural. Já a parada cardíaca é quando o coração para de bater subitamente ou entra em um ritmo caótico que não consegue bombear sangue. É como se o disjuntor da casa desarmasse e tudo ficasse no escuro instantaneamente.

Um infarto extenso pode gerar uma instabilidade elétrica tão grande que leva à parada cardíaca, mas nem toda parada é causada por infarto (pode ser por arritmias genéticas, distúrbios de eletrólitos ou traumas). No infarto, o paciente geralmente está consciente e sentindo dor; na parada, ele perde a consciência e para de respirar imediatamente. Saber que o infarto é um processo de obstrução reforça a importância de manter o “encanamento” limpo através de hábitos saudáveis e controle rigoroso de fatores de risco.

3. Jovens podem infartar?

Infelizmente, sim. A ideia de que o infarto é uma doença exclusiva de idosos ficou no passado. Estamos observando um aumento alarmante na incidência de eventos cardiovasculares em adultos jovens, na faixa dos 30 aos 45 anos. O estilo de vida moderno, marcado pelo sedentarismo, consumo excessivo de ultraprocessados e privação de sono, antecipou o relógio biológico das doenças arteriais.

A obesidade visceral, o uso de estimulantes (incluindo o excesso de cafeína e pré-treinos sem orientação) e hormônios (como testosterona para fins estéticos) têm sobrecarregado corações jovens. Além disso, o histórico familiar desempenha um papel crucial. Se você tem pais ou irmãos que infartaram antes dos 55 anos (homens) ou 65 anos (mulheres), seu risco genético é elevado e sua vigilância deve começar muito mais cedo. A genética influencia, mas o  comportamento determina.

Existem também casos raros de morte súbita em atletas jovens, geralmente relacionados a anomalias congênitas das artérias coronárias ou cardiomiopatias hipertróficas, que são problemas estruturais de nascimento. Por isso, a avaliação cardiológica não deve ser baseada na idade cronológica, mas no perfil de risco, no rastreio adequado e direcionado com exames e no do estilo de vida. Ser jovem não é um escudo contra o risco, a prevenção é a melhor estratégia.

4. Toda dor no peito é infarto?

Esta é, talvez, a dúvida que mais gera idas desnecessárias, ou tardias, ao pronto-socorro. Nem toda dor no peito é infarto, mas toda dor no peito merece ser investigada. O tórax abriga diversos órgãos e estruturas, e a dor pode ter origem muscular, esofágica, pulmonar ou até ser uma manifestação física de uma crise de ansiedade aguda.

A dor cardíaca típica, que chamamos de angina, geralmente se manifesta como um aperto, peso ou queimação no centro do peito, que pode irradiar para o braço esquerdo, mandíbula ou costas. Ela costuma piorar com o esforço e melhorar com o repouso. Sinais de alerta vermelha incluem dor associada a suor frio, náuseas, palidez e uma sensação de “morte iminente”. No entanto, mulheres e diabéticos podem apresentar sintomas atípicos, como apenas um cansaço extremo ou dor na boca do estômago.

Dores que pioram ao apertar o local, que são pontadas rápidas como “agulhadas” ou que mudam com a respiração profunda, tendem a ser de origem muscular ou inflamatória (costocondrite). Se a dor for súbita, intensa e persistente, a orientação é clara: procure a emergência.

Conclusão

Desmistificar o infarto é o primeiro passo para transformar medo em conhecimento, e conhecimento em prevenção. Entender seus mecanismos, reconhecer os sinais e conhecer os próprios fatores de risco permite agir antes que um evento aconteça.

Para quem está acostumado a tomar decisões com base em dados e antecipar riscos, a saúde não deveria ser diferente. Seu coração também merece estratégia, acompanhamento e planejamento.

Hoje, a medicina, a tecnologia de imagem e a medicina do estilo de vida oferecem ferramentas para uma prevenção cada vez mais personalizada, com foco não apenas em evitar doenças, mas em preservar longevidade, autonomia e produtividade

Não espere o sintoma para cuidar do seu coração. Sua saúde é seu ativo mais valioso: invista nela antes que o risco se transforme em doença.

Dra Natália Boing Salvatti – Médica cardiologista CRM-SP 186748 | RQE 97261

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