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Dra. Natália Boing Salvatti

Câncer de mama, saúde cardiovascular e o cuidado integrado ao longo da vida

O Outubro Rosa nos ensinou algo poderoso: não adiar o cuidado. Exame de mama marcado, conversa franca com o médico, atenção ao próprio corpo.

Mas, quando o assunto é a saúde cardiovascular da mulher, um dado quase nunca entra nessa conversa: a doença que mais mata mulheres no Brasil não é o câncer. É a doença do coração. Mais de 3 em cada 10 mortes de mulheres no país têm causa cardiovascular [1].

E quem enfrenta um câncer de mama também precisa cuidar do coração, antes, durante e depois do tratamento.

1. O coração mata mais que o câncer?

Sim. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres, à frente de todos os cânceres somados [1, 2]. No mundo, problemas do coração e AVC matam 1 a cada 3 mulheres por ano.

E tem um agravante que a própria Sociedade Brasileira de Cardiologia reconheceu em seu posicionamento de 2025: as mulheres são frequentemente subdiagnosticadas e subtratadas, em parte porque foram historicamente sub-representadas nos grandes estudos clínicos (entre 27% e 38% dos participantes) [3]. O “manual” do infarto foi escrito olhando para homens. Por isso, cuidar do coração feminino exige atenção específica, não adaptações improvisadas.

2. Por que o câncer de mama mexe com o coração?

São três conexões, e todas fazem diferença na sua vida:

Os mesmos hábitos prejudicam os dois. Sedentarismo, obesidade (principalmente a barriga), cigarro, álcool e dieta ruim aumentam o risco de infarto e de câncer ao mesmo tempo. As mesmas mudanças de vida protegem dos dois.

Alguns tratamentos do câncer afetam o coração. Certos tipos de quimioterapia e a radioterapia na região do peito podem desgastar o músculo cardíaco e as artérias ao longo dos anos. Estima-se que até 15% das pacientes desenvolvam algum tipo de dano cardíaco relacionado ao tratamento [4, 5].

Depois da cura, o coração fica em primeiro lugar. Entre mulheres curadas do câncer de mama, as doenças do coração são a principal causa de morte nos anos seguintes, e, nas mais velhas, superam o próprio câncer como ameaça à vida [2].

Em resumo: a medicina venceu muito do câncer de mama. O próximo desafio é garantir um coração saudável para os anos vencidos.

3. O que é isso de “cardio-oncologia”?

É simples: é o cuidado do coração de quem está tratando um câncer. A ideia central é proteger o coração antes que o dano aconteça, avaliando-o antes do tratamento, acompanhando durante, e monitorando nos anos seguintes [6].

O que isso significa para você, na prática:

  • Vai começar tratamento oncológico? Peça uma avaliação cardíaca de base.
  • Já terminou o tratamento? Seu coração continua sob risco, mesmo anos depois. Vale incluir o cardiologista no seu seguimento.

4. Sua história reprodutiva fala sobre seu coração

Essa é a informação que mais surpreende nos consultórios, e que quase ninguém conecta. O posicionamento da SBC de 2025 confirma: certas experiências da vida reprodutiva são marcadores de risco cardiovascular que valem por décadas [3]:

  • Pressão alta na gravidez (pré-eclâmpsia): dobra o risco de doença do coração e AVC nos anos seguintes
  • Diabetes na gravidez (diabetes gestacional): aumenta fortemente a chance de diabetes tipo 2 e de doença cardíaca depois
  • Síndrome dos ovários policísticos (SOP): associada a resistência à insulina, obesidade abdominal e risco elevado
  • Endometriose: associada a mais inflamação e maior risco de doença arterial, derrame e insuficiência cardíaca
  • Menopausa precoce (antes dos 40 a 45 anos): anos extras de vida sem a proteção do estrogênio pedem vigilância maior

Na próxima consulta, conte esses capítulos da sua história ao médico, mesmo que pareçam “coisa do passado”. Eles mudam a leitura do seu risco hoje.

5. E a menopausa? É hora de redobrar a atenção

Depois dos 40/50 anos, acontece uma mudança que o corpo avisa pouco: a queda do estrogênio, hormônio que protegia o coração. A partir daí, a pressão sobe, o colesterol piora e a gordura migra para a barriga.

A Diretriz Brasileira sobre o tema é clara: nas mulheres na pós-menopausa, a doença do coração mata mais que o câncer de mama e os demais cânceres ginecológicos somados [7].

A menopausa não é só “fase de calorão”. É o momento de reavaliar a saúde do coração.

6. Sinais de alerta que passam despercebidos

O infarto na mulher raramente vem como no filme, aquele aperto forte no peito. Ele costuma aparecer disfarçado:

  • Cansaço anormal, aquele que não passa com descanso
  • Falta de ar para esforços que antes eram fáceis
  • Náusea ou dor no estômago, sem causa aparente
  • Dor nas costas, ombro ou mandíbula
  • Suor frio e sensação de mal-estar

E há um detalhe técnico que ajuda a explicar isso: em muitas mulheres, o infarto acontece sem obstrução completa das artérias; a doença se instala de forma mais difusa e inflamatória nos vasos pequenos [3]. O exame “normal” de rotina não descarta o risco, e os sintomas merecem investigação séria.

Se um desses sintomas aparecer de forma intensa e inesperada, trate como urgência. Não espere “melhorar”.

7. O que fazer agora: checklist prático

Conheça seus números. Pressão, colesterol, glicemia e a medida da barriga (acima de 88 cm já indica risco alto para mulheres brasileiras). Uma dica simples: se sua cintura é maior que metade da sua altura, é sinal de alerta [3].

Conte sua história reprodutiva ao médico. Pré-eclâmpsia, diabetes na gravidez, SOP, endometriose ou menopausa precoce? Isso muda o cálculo do seu risco, e quase ninguém faz essa conexão.

Use a menopausa como “sirene”. Se está nessa fase, é hora da avaliação cardiovascular completa, não depois do primeiro sintoma.

Tratou um câncer de mama? Inclua o coração no plano. Avaliação antes, durante e depois do tratamento.

Mexa o corpo, cuide do prato, durma bem. Não é conselho genérico: é o que reduz o risco de infarto e de câncer ao mesmo tempo. O padrão alimentar com mais evidência é o estilo mediterrâneo, adaptável à comida brasileira [3].

Para fechar: o Outubro Rosa ensinou as mulheres a não adiarem o cuidado com a mama. A mesma lição vale para o coração, que mata mais que o câncer de mama, acompanha o tratamento oncológico e define a qualidade dos anos conquistados depois da cura.

Mama e coração não são campanhas concorrentes. São o mesmo compromisso com a sua saúde.

Se você se reconheceu nesse texto, o próximo passo é simples: uma avaliação de risco cardiovascular personalizada, com medidas básicas e um plano feito para a sua história. Porque a prevenção que funciona é a que começa antes do sintoma.

Dra. Natália Boing Salvatti
Cardiologista
CRM-SP 186748 | RQE 97261

Perguntas frequentes

Qual é a principal causa de morte entre as mulheres no Brasil?
A doença cardiovascular. Ela é responsável por mais de 3 em cada 10 óbitos de mulheres no país, à frente de todos os tipos de câncer somados [1].

Quem teve câncer de mama corre mais risco cardíaco?
Sim. Alguns tratamentos oncológicos, como certos quimioterápicos e a radioterapia na região do peito, podem afetar o coração. Por isso, sobreviventes de câncer de mama devem manter acompanhamento cardiovascular ao longo da vida [4, 5].

Quando a mulher deve fazer avaliação cardiovascular?
De preferência a partir dos 40 anos, e de forma prioritária no início da menopausa. Quem teve pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, síndrome dos ovários policísticos ou menopausa precoce deve antecipar essa avaliação [3].

Referências

  1. Oliveira GMM, et al. Estatística Cardiovascular – Brasil 2023. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2024;121(2):e20240079.
  2. Mehta LS, et al. Cardiovascular Disease and Breast Cancer: Where These Entities Intersect: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2018;137(21):e843-e852.
  3. Oliveira GMM, Almeida MCC, Valério CM, et al. Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2025;122(9):e20250615.
  4. Breast Cancer Research Foundation. What is Cardiotoxicity? All About Heart Damage from Cancer Treatment. 2026.
  5. Lopes RD, et al. Cardiovascular disease risk among female breast cancer survivors: findings from the National Health Interview Survey (2019–2022). Frontiers in Cancer Control and Society. 2026.
  6. Lyon AR, et al. 2022 ESC Guidelines on cardio-oncology developed in collaboration with the EHA, ESTRO and IC-OS. European Heart Journal. 2022;43(41):4229-4361.
  7. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2024.